DA FORMA AO SENTIDO CORPORIFICADO: MODELOS COGNITIVOS IDEALIZADOS NO SISTEMA DE CLASSIFICADORES DA LIBRAS
Nome: JOAQUIM CESAR CUNHA DOS SANTOS
Data de publicação: 14/09/2026
Banca:
| Nome |
Papel |
|---|---|
| FERNANDA NOGUEIRA DOS SANTOS | Examinador Externo |
| FLAVIA MEDEIROS ALVARO MACHADO | Presidente |
| MARIA DA PENHA PEREIRA LINS | Examinador Interno |
| ROBERTO PEROBELLI DE OLIVEIRA | Examinador Interno |
| VERIDIANE PINTO PEREIRA | Examinador Externo |
Resumo: A justificativa para este estudo fundamenta-se na necessidade de aprofundar a compreensão sobre o funcionamento morfossintático da Língua Brasileira de Sinais (Libras), com atenção especial ao sistema de classificadores. Historicamente marginalizadas por perspectivas formalistas que desconsideravam sua modalidade viso-gesto-espacial, as línguas de sinais exigem abordagens que transcendam a descrição puramente mecânica ou estrutural, integrando a cognição, a cultura e o uso situado da língua. O objetivo geral desta pesquisa é analisar o sistema de classificadores da Libras sob a perspectiva da Semântica Cognitiva, investigando como os Modelos Cognitivos Idealizados (ICMs) e os efeitos prototípicos motivam a seleção, a estruturação formal e o uso desses signos no espaço de sinalização. A questão-problema norteia-se em investigar de que maneira os classificadores operam como construções simbólicas motivadas e como se manifesta o processamento cognitivo e tradutório entre sujeitos surdos e Tradutores e Intérpretes de Libras-Português (TILS) ao lidarem com estruturas morfossintáticas e espaciais complexas. Parte-se da hipótese central de que certos sinais que não são tradicionalmente categorizados como classificadores apresentam comportamentos morfossintáticos e funcionais que os aproximam dessa categoria, sendo motivados por esquemas imagéticos e Modelos Cognitivos Idealizados fundados na experiência corporificada (embodiment) da comunidade surda. A pesquisa filia-se à Linguística Cognitiva, destacando-se a Semântica Cognitiva experiencialista e a Teoria dos Modelos Cognitivos Idealizados (TMCI) (Lakoff, 1987; Álvaro-Machado, 2012, 2024), além de incorporar discussões teóricas sobre complementação e ergatividade (Cyrino, Nunes e Pagotto, 2009; Casseb-Galvão, 2020) para evidenciar a autonomia e a complexidade sintática da Libras. Utilizou-se uma abordagem metodológica qualitativa e analítico-descritiva, de cunho experimental. O corpus foi constituído a partir de gravações audiovisuais de 6 participantes, divididos em 3 Surdos fluentes e 3 TILS, submetidos a 10 sentenças-estímulo (5 simples e 5 complexas) em tarefas controladas de tradução intermodal (português para Libras) e de compreensão com registro escrito em português (Libras para o português escrito). As análises examinaram as produções multimodais, mapeando a tipologia dos classificadores instanciados, a ativação de esquemas imagéticos (CONTAINER, SOURCE-PATH-GOAL), a gestão do espaço sub-rogado (role shift), os efeitos de prototipicidade (centralidade versus periferia categorial) e as estratégias de textualização escrita adotadas pelos participantes surdos a partir do estímulo visual em Libras. A discussão dos resultados finais revela que a organização gramatical da Libras é intrinsecamente motivada e corporificada, refutando a ideia de decalque ou arbitrariedade. Os dados confirmam que a categoria de classificadores é mais ampla e flexível do que preveem as taxonomias formalistas tradicionais. Além disso, evidenciam-se as distintas estratégias cognitivas dos TILS na projeção de espaços de mesclagem (blending) e a forma como os surdos convertem a espacialidade visual em textualizações escritas, consolidando subsídios conceituais robustos para a descrição gramatical, os estudos da tradução e a educação de surdos.
