Argumentação e oralidade no Currículo do Espírito Santo: uma análise dialógico-indiciária
Nome: MARIANA DE BRITO BATISTA
Data de publicação: 10/02/2026
Banca:
| Nome |
Papel |
|---|---|
| ISABEL CRISTINA MICHELAN DE AZEVEDO | Examinador Externo |
| LUCIANO NOVAES VIDON | Presidente |
| VIVIAN PINTO RIOLO | Examinador Interno |
Resumo: A presente dissertação investiga as orientações para o ensino da argumentação no
Ensino Médio a partir de uma análise documental do Currículo do Espírito Santo
(2020), elaborado em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (Brasil,
2018). Inscrita no campo da Linguística Aplicada indisciplinar, a pesquisa assume uma
perspectiva crítica, dialógica e decolonial, compreendendo os documentos
curriculares como enunciados historicamente situados e atravessados por valores. No
plano teórico, ancora-se no dialogismo de inspiração bakhtiniana (Bakhtin, 2011
[1979]; Volóchinov, 2017 [1929]), a partir do qual a argumentação é concebida como
prática discursiva viva, responsiva e constitutivamente orientada pela relação com a
palavra do outro, implicando posicionamento axiológico e participação na arena social.
Nesse contexto, parte-se do seguinte problema de pesquisa: como o Currículo do
Espírito Santo compreende e orienta o ensino da argumentação no Ensino Médio, e
que concepções de linguagem e de sujeito emergem dessa orientação? Em resposta
a esse questionamento, formula-se a hipótese de que o documento estadual, ao se
constituir a partir da BNCC, tende a reproduzir uma racionalidade tecnicista e
performativa, que limita as práticas de argumentação oral e dialógica, ainda que
apresente brechas discursivas que possibilitam a reinscrição de práticas mais
responsivas e dialógicas. O objetivo central consiste em analisar discursivamente as
concepções de argumentação mobilizadas pelo currículo estadual, identificando
tensões, silenciamentos e possibilidades para práticas pedagógicas que valorizem a
oralidade, a autoria e o posicionamento ético dos estudantes. Adota-se uma
metodologia qualitativa ancorada no indiciarismo dialógico de inspiração bakhtiniana
(Oliveira, 2021), que articula a observação de indícios textuais e discursivos ao
horizonte ideológico dos documentos analisados. O percurso analítico compreendeu
seis etapas: revisão bibliográfica; revisão documental; análise macro e micro do
Currículo ES; formulação prévia e proposição final de práticas pedagógicas. Os
resultados indicam que o currículo reproduz, de modo significativo, a racionalidade
técnica e performativa da BNCC, marcada pela padronização de verbos de comando
e pela diminuição da centralidade do sujeito discursivo. A leitura micro, centrada no
Caderno de Língua Portuguesa e no Campo da Vida Pública, revelou tanto o
esvaziamento do conflito e do dissenso quanto a existência de brechas enunciativas
que permitem reinscrever a argumentação como prática ética, responsiva e dialógica.
Em resposta a esse cenário, propõem-se caminhos pedagógicos inspirados no
dialogismo e na estilística bakhtiniana, com ênfase na oralidade como forma legítima
de argumentar. Entre as possibilidades destacam-se assembleias, rodas de conversa,
debates mediados e demais situações de fala que favoreçam a contrapalavra, a
escuta responsiva e a participação na vida pública escolar. Conclui-se que o ensino
da argumentação, para cumprir seu papel formativo em uma sociedade democrática,
deve ir além da técnica e da avaliação, constituindo-se como prática viva, situada e
atravessada pela pluralidade de vozes presentes na escola pública brasileira.
