Análise variável dos róticos em Ibitiruí, Alfredo Chaves/ES: uma marca afetiva do “Engano”

Nome: MARCIO FAVERO FIORIN

Data de publicação: 23/10/2025

Banca:

Nomeordem decrescente Papel
ALEXSANDRO RODRIGUES MEIRELES Presidente
BEATRIZ RAPOSO DE MEDEIROS Examinador Externo
ELISA BATTISTI Examinador Externo
LEILA MARIA TESCH Examinador Interno
RONALD BELINE MENDES Examinador Externo

Resumo: Este trabalho investiga os efeitos do contato linguístico entre o
Português Brasileiro e a língua vêneta, em comunidades de descendentes de
imigrantes italianos no Espírito Santo, com foco específico na variação dos
róticos em Ibitiruí, distrito do município de Alfredo Chaves. A imigração italiana,
iniciada a partir do final do século XIX, trouxe ao estado um contingente
majoritariamente oriundo da região do Vêneto, província do Norte da Itália, cuja
língua se manteve, ao longo de gerações, como herança afetiva e símbolo
identitário em contextos de bilinguismo assimétrico. Ainda que o vêneto
apresente hoje um declínio no uso cotidiano, sobretudo entre as gerações mais
jovens, ele continua a desempenhar papel simbólico relevante, influenciando
práticas linguísticas e socioculturais locais. A pesquisa baseia-se em um corpus
de dezoito entrevistas sociolinguísticas, totalizando dezenove informantes,
majoritariamente membros da comunidade de Ibitiruí ou indivíduos que
passaram a maior parte de suas vidas no local. As entrevistas foram conduzidas
de forma semiestruturada, abordando temas ligados à trajetória de vida, práticas
culturais, memória comunitária e identidade linguística. A amostra foi
estratificada segundo sexo, faixa etária e escolaridade, e os dados foram
analisados a partir de dois envelopes de variação: um com influência da língua
vêneta, que engloba as realizações consideradas canônicas dessa língua, e
outro sem influência vêneta, associado a variantes inovadoras ou mais alinhadas
às tendências gerais da língua portuguesa. No que se refere aos ambientes
fonéticos, observou-se que o início de palavra e, sobretudo, a posição
intervocálica, em especial a coda silábica medial, são os contextos que mais
favorecem a realização de traços associados ao vêneto, como o tepe alveolar []
e, em menor medida, a vibrante múltipla [r]. Em contraste, a coda silábica final
mostrou-se propícia à emergência de variantes aspiradas e ao apagamento,
configurando um espaço de inovação fonética no repertório local. Os dados
foram submetidos à análise estatística descritiva por meio da plataforma R (R
Core Team, 2016) e complementados por uma análise qualitativa ancorada na
literatura da Sociolinguística Variacionista (WEINREICH; LABOV; HERZOG,
2006; LABOV, 2008 [1972]), do Contato Linguístico (WEINREICH, 1970;
FISHMAN, 1991; TRUDGILL, 1992; MONTRUL, 2013) e de estudos sobre a
variação dos róticos no PB (CÂMARA JR., 1983; 1992; CALLOU; LEITE, 1996;
2004). Os resultados indicam a predominância do tepe alveolar [] como forma
canônica na comunidade, representando cerca de 70% das ocorrências, seguido
pela fricativa glotal [h] e pela fricativa velar [x], além do apagamento [Ø]. A
vibrante múltipla [r], devido à sua baixa frequência, foi agregada ao tepe para
fins analíticos. Nesse sentido, a variação dos róticos em Ibitiruí ultrapassa o nível
estritamente fonético, refletindo dinâmicas históricas, sociais e identitárias,
sendo uma marca afetiva do “Engano”. Partimos, assim, da hipótese de que: (i)
os ambientes fonéticos que demarcam a influência da língua vêneta –
especialmente o início de palavras e a coda silábica medial – tendem a ser
avaliados de forma negativa ou estigmatizada por falantes mais jovens, ainda
que de modo implícito; e (ii) para além da escolarização, fatores extralinguísticos,
como o status social associado ao grupo falante do vêneto, exercem papel
central no processo de substituição da língua de herança e de seus traços
fonético-fonológicos.

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