POST-RELATOS DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA NA PÁGINA DO INSTAGRAM “ACERVO DE RELATOS MAS ELE NUNCA ME BATEU”: O CONTRADISCURSO SOB A LENTE DOS ESTUDOS CRÍTICOS DO DISCURSO

Nome: DANIELA LITTIG ENDLICH

Data de publicação: 31/07/2025

Banca:

Nomeordem decrescente Papel
MICHELINE MATTEDI TOMAZI Presidente
RENATA BARRETO DA FONSECA Examinador Externo
ZAIRA BOMFANTE DOS SANTOS Examinador Interno

Resumo: Esta pesquisa se justifica pela importância dos movimentos sociais que atuam na rede social Instagram
como contradiscursos no problema social da violência de gênero contra mulheres. Considerando que,
além da violência física, existem outros tipos de violências (psicológica, moral, patrimonial). Esta
dissertação procura demonstrar que as violências não-físicas ocorrem na e pela linguagem. A página
do Instagram “Acervo de relatos mas ele nunca me bateu” (ACMAS) é utilizada para que as mulheres
relatem suas vivências de violências, quase sempre silenciadas pelo descredito e falta de provas para
que sejam denunciadas. Nesse sentido, o objetivo geral desta dissertação é analisar discursivamente a
Representação Social (RS) presente no contradiscurso das mulheres vítimas de violência psicológica,
moral e patrimonial por parte de seus parceiros ou ex-parceiros em relações afetivo-conjugais
publicados na página ACMAS. Defendemos que a página funciona como Movimento Social no
combate à violência de homens contra as mulheres, incentivando a produção de atividades de
repertório pelas seguidoras a fim de que elas compartilhem, anonimamente, as suas vivências de
violência. A metodologia utilizada é qualitativa e interpretativa, e a coleta dos post-relatos foi realizada
manualmente durante o período de 31 de janeiro de 2023 a 30 de junho de 2024 por meio de prints da
página no Instagram, resultando em um total de 361 dos quais selecionamos 9 post-relatos para
análise. A seleção se deu abarcando somente os relatos que contém as violências psicológicas, morais
e patrimoniais com a adição da oração adversativa “mas ele nunca me bateu” ou “ele nunca me bateu,
mas”. Como aporte teórico-metodológico, utilizamos a abordagem sociocognitiva dos ECD de van
Dijk (1992, 1993, 2000, 2008, 2011, 2014, 2015, 2016, 2021, 2024) enfocando os aspectos da tríade
discurso-cognição-sociedade, da RS e das relações de poder. Em diálogo com os ECD, ao abordarmos
sobre o gênero discursivo que constitui o post-relato, dialogamos com Bakhtin (1997), Cristiane Dias
(2019), entre outros. Ao situarmos as redes sociais para a pesquisa, recorremos a Recuero (2012, 2015)
e Castells (2015). Em relação à violência de gênero contra a mulher, buscamos as leis que regem esse
crime no Brasil e trabalhos que nos direcionam para a discussão sobre gênero, Heleieth Saffioti, 1994,
2001, 2004; bell hooks, 2020; e Gerda Lerner, 2019, além de trabalhos que tratam de violência contra
mulheres Micheline Tomazi, 2019, 2020; Raquelli Natale, 2015; Renata Fonseca, 2022; entre outros.
Os resultados indicam que algumas estratégias linguístico-discursivas, como a pronominalização, a
adjetivação, o uso de modalizações verbais, além de estruturas discursivas dos relatos por meio de
superestruturas narrativas foram mais recorrentes para a construção da RS das mulheres como
protagonistas das violências sofridas, demonstrando uma autoapresentação positiva em relação ao
reconhecimento das ações de violência, busca de independência e defesa de uma ideologia
antimachista, ao mesmo tempo em que demonstram uma outroapresentação negativa de seu agressor
como perpetrador de violências não-físicas utilizando atitudes, ideologia machista e conservadoras. A
pesquisa também demonstra a importância da página ACMAS como MS em prol do reconhecimento
de outros tipos de violência, além da física, dando as mulheres não só a oportunidade de serem
ouvidas, mas também de marcarem um posicionamento de resistência e contradiscurso para
reconhecimento de outras violências que, reconhecidas por outras tantas mulheres, possam motivar
mudança nas práticas sociais machistas e patriarcais.

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